sábado, 14 de julho de 2012

Atalanta Fugiens



    A mulher mais veloz do mundo é minha filha, Atalanta! — dizia sempre Esqueneu, o rei de Ciros, orgulhoso. Sua filha, por sua vez, não fazia nada para desmentir tais palavras. Desde menina que a esbelta Atalanta já corria velozmente pelos campos. Porém, também corria uma lenda a respeito desse hábito. — que nela parecia mais uma obsessão — e que dizia o seguinte: quando a jovem nascera, fora profetizado que ela jamais deveria se casar, pois o casamento seria a sua ruína. Levado por este temor, seu pai a ensinou desde cedo a se esquivar de qualquer pretendente, pois desde a infância que os pedidos de casamento se acumulavam diante do trono:
— Minha filha, lembre-se de que você jamais deverá se casar — dizia-lhe sempre seu pai, quando a via inclinada a aceitar os elogios de alguém amante mais afoito.
Atalanta acabou gostando do hábito de se esquivar, de tal forma que sentia mais prazer em fugir do que conversando com seus pretendentes. Tendo se colocado sob a proteção de Artemis, a jovem isolou-se no campo, em caçadas com suas companheiras. Mas os pedidos continuavam cada vez mais, e com tanta insistência, que um dia ela disse ao pai:
— Pai, não agüento mais essa perseguição dia e noite! Preciso afastar esse bando de impertinentes.
O rei concordou e arranjou um meio de afastá-los: todo homem que quisesse receber a mão de sua filha teria de vencê-la em urna corrida de vida ou morte. Aquele que perdesse, porém, seria inevitavelmente morto.
— Isto os fará pensar duas vezes antes de entrar na disputa — disse o rei. Atalanta ficou encantada com a idéia, pois tinha certeza de que ninguém conseguiria ser mais veloz do que ela. Ficou marcada, assim, uma corrida para o mês seguinte.
Apesar da ameaça que pairava sobre a cabeça dos concorrentes, apresentou-se uma quantidade imensa deles, de tal modo que o rei chegou a pensar em suspender a disputa.
— Não se preocupe, pai, eu vencerei todos eles! — disse Atalanta, confiante. No dia marcado, apresentaram-se homens de todos os tipos. Mais um pouco, e surgiu o alvo de todas as atenções: Atalanta, cuja beleza nunca estivera tão evidente. Seus cabelos estavam presos num gracioso penteado ao alto da cabeça. Vestida com um levíssimo traje de linho, ela achou melhor despi-lo, para ter seus movimentos facilitados. Mas ao despir-se, fez também com que mais uma centena de concorrentes se inscrevessem às pressas, aglomerando-se entre os demais na linha de partida.
Aquilo começava a tomar as perigosas proporções de um suicídio coletivo. — Isto será um verdadeiro massacre, alteza! Disse um assessor do rei, temeroso das conseqüências.
— Ótimo — replicou o monarca. — Servirá de lição aos futuros pretendentes.
Enquanto isto se passava nas tribunas, Atalanta, separada dos concorrentes, passava um óleo por todo o corpo. Seus seios e curvas brilhavam ao sol, e a jovem parecia recém-emergida das águas. Suas formas eram atléticas o bastante para lembrar o corpo de um homem e suficientemente femininas para afastar tai idéia. Os másculos de suas pernas luziam, fremindo como as coxas de um puro sangue, enquanto seus pés, flexionados, tinham a perfeição dos pés de uma estátua prestes a saltar do pedestal. Quando a jovem se abaixou para esfregar o Óleo nas canelas, um suspiro de admiração percorreu toda a assistência: seus seios, apesar de volumosos, permaneciam firmes e sólidos, enquanto as nádegas fremiam no retesar vibrante dos músculos. Atalanta lançou, então, um olhar aprovativo para o rei, na tribuna.
Finalmente, soou o Sinai para a partida. No mesmo instante Atalanta partiu, lançando seu pé direito para a frente num salto que lembrava o da mais ágil gazeia. Os homens, amontoando-se na pressa de serem os primeiros, tropeçavam uns sobre os outros, caindo num bolo humano logo na saída. Parecia que um monstro masculino formara-se no solo, com dezenas de cabeças, membros, braços e pernas.
Dentre os juízes, contudo, havia um jovem ambicioso, chamado Meleagro, que mais que qualquer outro parecia acompanhar a competição em um estado de animo próximo do êxtase. Desde que Atalanta despira-se, ele não pôde mais desgrudar os olhos daquela magnífica mulher “Essa mulher será minha!”, pensava Meleagro, enquanto torcia pela vitória de Atalanta e, conseqüentemente, pela morte de todos os seus adversários.
Atalanta já ganhara a dianteira; seu corpo movia-se com a perfeição elástica de um felino. Os pé nus batendo sobre a areia levantavam um fino vapor, como se pelo atrito fossem incendiar o solo. Os seios rijos da princesa sacudiam, mas sem comprometer a leveza dos movimentos. Seu rosto, incendiado por duas manchas vermelhas, abrasava-se, enquanto da boca escapava um sopro forte e ritmado. Mas a nada disso os concorrentes — sempre atrás de Atalanta — puderam ver. Enxergaram apenas as suas costas, o que, por certo, não era espetáculo menos digno e empolgante: os ossos de suas omoplatas moviam-se alternadamente, ao ritmo dos braços, produzindo um movimento perfeito da musculatura dorsal. As nádegas não balançavam, mas fremiam, absorvendo o impacto das vigorosas passadas.
Os adversários já estavam reduzidos a apenas meia dúzia de concorrentes que, de longe, não ameaçavam a moça. Mesmo o mais veloz nunca esteve a menos de cem metros dela, que dava-se ao luxo de virar-se para observar os rivais. Quando Atalanta cruzou a linha de chegada, um sorriso brilhava nos seus lábios entreabertos. Os infelizes, derrotados, foram imediatamente reunidos para o sacrifício.
 — Pai, proponho que, no lugar de serem sacrificados, sejam estes homens privados da sua virilidade! — disse Atalanta, mostrando-se mais cruel em sua aparente piedade do que se tivesse autorizado a morte de todos.
— Assim, ao menos, deixarão de me incomodar.
O povo, no entanto, viu-se presenteado com o espetáculo das execuções, do qual desfrutou com imenso assombro e prazer, enquanto a causadora do holocausto retirava-se, aborrecida peio vulgarismo do sangue. Contudo, Meleagro — cuja decisão não fora afetada pelo funesto resultado da competição — continuava determinado a conquistar Atalanta. Pulou da tribuna e caiu aos pés da bela corredora e futura adversária:
— Lindíssima Atalanta, permita que eu a desafie para uma disputa, somente eu e você! — disse Meleagro, com os olhos erguidos e ofuscados pelo olhar surpreso da moça.
— Vocé... ?! — disse Atalanta, surpresa. — Não teme se unir àqueles desgraçados? — A única coisa que temo é não ter você ao meu lado — exclamou o rapaz.
— Muito bem, belo e audacioso jovem, marque o dia e a hora — disse a moça, retirando-se para lavar o suor e o óleo de seu corpo. Meleagro, à medida que via a data do confronto se aproximar, começava, no entanto, a inquietar-se. Talvez tivesse sido imprudente ao se lançar a um desafio sem ter um trunfo nas mãos. Na véspera da disputa, temeroso de perder a sua amada, ele foi ao templo de Afrodite pedir proteção. A deusa do amor, lisonjeada com o pedido e desejosa de abater aquela moça que parecia fazer pouco dos seus dons, disse ao desesperado pretendente: — Aqui, ao lado do templo, há um pomar consagrado a mim; vá até Ia e colha três maçãs douradas que pendem de seus galhos. Instruiu-o na maneira de usar os frutos durante a competição, e o rapaz saiu, mais confiante.
No dia seguinte, postaram-se ambos — Atalanta e Meleagro — para a disputa, o que atraiu nova multidão ao campo do confronto. Atalanta, bela e radiante, estava lado a lado com seu oponente, que preferiu correr vestido com um pequeno manto — em cujos bolsos levava as três maçãs. Tão logo o rei deu o Sinai para a partida, Atalanta arremessou-se outra vez para a frente, nua e ágil como uma leoa. Hipornene, não menos empolgado, também lançou-se com toda a vontade. O jovem parecia ser o primeiro rival a altura da veloz moça. Por alguns instantes esteve emparelhado com Atalanta, roçando a sua pele nos membros ágeis daquela mulher e sentindo em seu rosto o hálito intenso e perfumado da adversária.
Tão entusiasmante era esse combustível, que Meleagro não precisaria sequer das suas maçãs para chegar no mínimo empatado com ela. Atalanta, percebendo a proximidade, apertou o passo e logo deixou para trás o desafiante. Meleagro, vendo que suas forças não seriam o bastante para dobrar a rival, decidiu recorrer ao artifício de Afrodite. Pegou do bolso uma das maçãs douradas, esfregou-a no manto e lançou-a longe, de tal modo que o fruto caiu um pouco adiante dos pés de Atalanta. A moça, vendo aquele objeto dourado rolar aos seus pés, parou para ver o que era. Ajoelhando-se, recolheu o fruto, admirada de seu brilho e beleza, enquanto Meleagro aproveitava sua distração para ultrapassá-la.
Entretanto, percebendo que o rapaz a deixava para trás, Atalanta retornou a corrida e num instante ganhou vantagem sobre o adversário. Meleagro, outra vez, recorreu ao mesmo expediente. Atalanta, apesar de já ter sido enganada uma vez, não pôde deixar de recolher novamente o belo e precioso fruto. De posse dele, retomou sua carreira, ultrapassando com facilidade Meleagro. Agora ela já estava a dez passos da linha de chegada. Meleagro teve de calcular bem o seu último disparo. Com extrema perícia, arremessou o último fruto dourado, que foi cair a apenas alguns metros da linha de chegada. Atalanta, calculando que teria tempo de juntar a maçã e ainda chegar a frente de seu adversário, abaixou-se para junta-lo. — E agora ou nunca! — esbravejou o rapaz, colocando toda a sua força num último arremesso.
Enquanto Atalanta erguia-se, sentiu passar-lhe pelo rosto um vento veloz. Em seguida um grito de espanto ecoou ao seu redor. Meleagro transpusera a linha de chegada e vencera a corrida! Atalanta, abatida, deu-se finalmente por vencida. O casamento foi marcado, e embora a jovem se mostrasse decepcionada com o resultado do desafio, não estava de todo desgostosa com as núpcias. Meleagro era um belo rapaz — e também inteligente, o que ela apreciava mais do que tudo em um homem. Os dois casaram-se e tiveram a oportunidade de disputar ainda, reservadamente, muitas outras corridas, das quais ela se saía sempre vencedora. Cada vez mais se acendia o ardor entre os dois amantes, até chegar ao ponto de fazê-los descuidar-se de suas obrigações para com os deuses. Meleagro, num descuido imperdoável, esqueceu de agradecer a Afrodite pela vitória. Irada, a deusa do amor decidiu punir marido e mulher, fazendo com que profanassem o templo de Réia, deusa da fertilidade e da terra, ao fazer ali os exercícios prescritos por Afrodite. A divindade, encolerizada com o desrespeito, puniu imediatamente os dois amantes, transformando Meleagro num leão e Atalanta numa Ieoa e colocando-os a puxar o seu belo carro.

sábado, 30 de julho de 2011

... o ser dentro de mim...


"Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. O seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que o cavalo não tem nome. Basta chama-lo e acerta-se logo com o nome. Ou não se acerta, mas uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: as pessoas enganam-se e pensam que são elas mesmas que estão a relinchar de prazer ou de cólera, as pessoas assustam-se com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez."

in adaptação de “uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector

quinta-feira, 16 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Voltei!!!



Caminhei, caminhei, caminhei...

... Voltei para o mesmo lugar.


Na verdade dei voltas sem sair de mim.



terça-feira, 19 de abril de 2011

Será este o cantinho das declarações? Não... mas abro espaço...


O Nosso Livro


Livro do meu amor, do teu amor,

Livro do nosso amor, do nosso peito...

Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor

Mais santamente triste, mais perfeito

Não esfolhes os lírios com que é feito

Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém!

Só meu! Só teu!

Num sorriso tu dizes e digo eu:

Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor!

Mas quanta, quanta gente

Dirá, fechando o livro docemente:

"Versos só nossos, só de nós os dois!..."


Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

...

Era para ser apenas meu cantinho, ou a continuação daquelas coleções de poemas, imagens e músicas, que na adolescência fazíamos em nossos "cadernos de recordações", guardados no fundo do baú para não serem violados por pais curiosos e irmãos zombeteiros.


Nem sei quando começou a ser espaço de íntimas revelações... Daquelas da nossa face oculta, que por muito tempo na vida, passamos a esconder até mesmo de nós.


Agora... nem sei mais. Vai ganhando outras formas...

sábado, 9 de abril de 2011

A viagem do “Eu” no “Novo Mundo”

Depois de um ano aventurando/me pelas possibilidades de novas descobertas sobre o mundo e a própria vida, hoje sinto a necessidade de reflexões mais serenas e conscientes.

Com pausa nas lamúrias imaturas, por não ter todos os meus desejos atendidos como por encanto, é à hora de ver o saldo positivo do aprendizado deste caminho desconhecido, até aqui trilhado. Graças à iniciativa de evitar o medo no processo de sociabilização, valiosos foram os exercícios praticados.

Algumas impressões errôneas foram desfeitas, apesar da profunda tristeza sentida pela injustiça do comportamento equivocado, que não sai da prática de corações endurecidos. Que sejam evitadas novas generalizações precipitadas.

Uma grande quantidade de preconceito foi quebrada, apesar da amarga decepção sentida pela dureza da estupidez humana, que não abandona seres ignorantes. Que sejam evitadas novas classificações sem conhecimento.

É prazeroso contemplar o lindo desnudar da própria natureza. Aqui a viagem é difícil, mas a paisagem que surge, é muito mais bonita. A grande floresta escura e insondável do “Eu”, começou a ser cuidadosamente percorrida, com o avanço em reconhecer/me também no “outro”.

Meu universo interior ganhou novos espaços com lindas clareiras, onde hoje paro para descansar, enquanto aprecio as flores que brotam com a luz, que ali se faz presente. Que sejam contínuos os esforços do desbravar.

O caminho que falta para percorrer ainda será muito longo. Provavelmente nunca termine. Que assim seja.

Os próximos desafios serão enormes, mas a satisfação de ter avançado sobre as limitações é um grande tesouro conquistado. Que seja sempre visto como a mais doce e valiosa recompensa.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Revendo o sentido da "coisa irrespondida"


"Pergunto-te onde se acha a minha vida.

Em que dia fui eu. Que hora existiu

formada de uma verdade minha bem possuída

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso,

iludida por esperanças hereditárias?

E de cada pergunta minha vai nascendo a sombra imensa

que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença de ti,

de mim, da coisa perguntada,

do silêncio da coisa irrespondida”.


. Cecilia Meireles .

domingo, 3 de abril de 2011

Agradeço pela paciência de reinventar/me constantemente

"Ele não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática e sem aquela necessidade toda de ser amada.


Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas. Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos.


Ele não sabe que a cada dia eu penso menos nele, mas que conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranqüilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias todos e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos.


Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco. Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos. Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim.


Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre.


Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura. Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso.


Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha.


Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria."


(Marla de Queiroz)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Silêncio...

Ficará uma lacuna... um silêncio... Aquela que um dia aqui registrou, já não é mais a mesma. Libertou/se

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Estabilidade X Liberdade




"Homens, flores, rancores, amores.
Você foi a bela adormecida, é a donzela decaída.
Sonhos, tolos, confundiram sua mente.
Até que ponto isso tudo
Pode te deixar doente
Você ainda é tão jovem...

... Estamos sofrendo, dessas doenças de alma.
Estamos amando em meio a uma grande guerra
Dançamos a valsa no meio da rua
Seguimos uivando pra rainha, a lua.

O sete é um numero místico, é um numero cíclico.
Dizem que de sete em sete pazes
Todas as coisas se transformam
Eu aguardo a mudança
Eu quero paz mental, estabilidade.
Por outro lado este amor me sugere liberdade"



As Doenças Da Alma
Júpiter Maçã

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Construindo-me, precisamente. "



Ninguém Se Conhece a Si Mesmo


Julga que se conhece, se não se construir de algum modo?

E julga que eu posso conhecê-lo, se não o construir à minha maneira?

E julga que me pode conhecer, se não me construir à sua maneira?

Só podemos conhecer aquilo a que conseguimos dar forma.

Mas que conhecimento pode ser esse?

Não será essa forma a própria coisa?

Sim, tanto para mim como para si; mas não da mesma maneira para mim e para si: isso é tão verdade que eu não me reconheço na forma que você me dá, nem você se reconhece na forma que eu lhe dou; e a mesma coisa não é igual para todos e mesmo para cada um de nós pode mudar constantemente. E, contudo, não há outra realidade fora desta, a não ser na forma momentânea que conseguimos dar a nós mesmos, aos outros e às coisas.

A realidade que eu tenho para si está na forma que você me dá; mas é realidade para si, não é para mim. E, para mim mesmo, eu não tenho outra realidade senão na forma que consigo dar a mim próprio.

Como?

Construindo-me, precisamente.


Luigi Pirandello, in "Um, Ninguém e Cem Mil"

domingo, 30 de janeiro de 2011

Alguém Me Disse...

"Disseram-me que as nossas vidas não valem grande coisa,
Elas passam em instantes como murcham as rosas.
Disseram-me que o tempo que desliza é um bastardo
Que das nossas tristezas ele faz seus investimentos
...
Disseram-me que o destino debocha de nós
Que não nos dá nada e nos promete tudo
Faz parecer que a felicidade está ao alcance das mãos,
Então a gente estende a mão e se descobre louco"
Composição: Carla Bruni / Léos Carax

Quelqu'un m'a dit

domingo, 16 de janeiro de 2011

Perdoados serão os teus remotos instintos súbitos, desde que me sirvas eternamente de teu mel

Elegia a uma pequena borboleta


Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!




De: MEIRELES, Cecília. “Retrato natural”. In: Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Procurando se encontrar...


"Às vezes me sinto perdida,
não sei que rumo tomar,
são entraves que sempre encontro
ao longo do caminhar.
não sei se ando ou se paro,
não sei se grito se calo.
não sei se ignoro ou se atendo,
se protesto ou se defendo.
não sei se afasto ou se abraço,
não sei se construo se desfaço.
meio perdida na confusão do mundo,
meio perdida na confusão de mim ,
meio perdida na confusão de tudo ,
meio perdida na confusão sem fim."
Procurando encontrar...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Para 2011...


... escolho o desejo de não sofrer.


Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa, os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"